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Escrito por JRMarques às 5:23:08 AM
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Definitivamente a violência está na "moda". Ocupou espaço, obteve destaque em todas as "mídias". Presente em todas as falas, em todos os textos - e subtextos -, contaminando imagens, cenários, arraigou-se no inconsciente coletivo. Tornou-se parte "inalienável" do dia-a-dia: respiramos violência, processamos os seus funestos insumos, transformando-os em alimento de "mais-violência". Contudo, alguém já se deteve diante da necessidade vital da reflexão acerca de suas possíveis origens?

De modo geral, quando o assunto vem à tona, alguns pressupostos clássicos, imediatamente, são levantados: miséria, crescimento urbano desordenado, gestão ineficaz das questões públicas, concentração de riquezas em parcelas diminutas da sociedade, traço essencial característico do lado mais obscuro e primitivo da índole humana, e por aí continua. No entanto, se pensarmos bem - não obstante a procedência lógica de tais argumentos -, perceberemos, com relativa facilidade, seu caráter superficial; meramente periférico.

Sem dúvida, indivíduos privados do mínimo necessário à manutenção da dignidade humana podem assumir atitudes extremadas. Entretanto, como explicar a violência extrema praticada, por exemplo, por jovens oriundos das camadas mais "elevadas" da chamada pirâmide social? Muitas vezes, não apenas em decorrência de anomalias; patologias psíquicas. Mas por "esporte", "diversão", ganância ou simples crueldade: indigentes queimados vivos na calada da noite - ou não! - em plena praça pública, colegas de escola alvejados com projéteis de grosso calibre, adolescentes que trucidam os próprios pais de maneira pusilânime e por motivos torpes, jovens casais que, ao arremessarem crianças inocentes pelas janelas dos suntuosos apartamentos de classe média alta, antes de tudo, estilhaçam nossa parca humanidade, tornando-nos indignos de sermos classificados como homens ou mulheres.

Não podemos, também, estigmatizar o "terceiro mundo" - com seus sistemas precários de gestão institucional -, com o rótulo da suprema "selvageria mundial". Seria, no mínimo, inócuo. Senão, como explicar as mais diversas e primitivas manifestações de violência, brotando ao longo da história, exatamente, naquelas sociedades consideradas mais avançadas em relação ao aspecto humano? Crime organizado, sistemas políticos totalitários (nazismo, fascismo, etc.), intolerância racial, referências comportamentais centradas em signos bélicos; armamentistas.

Por outro lado, se nossos ancestrais primitivos travavam ferrenhas batalhas, dispondo de suas próprias ossadas, hoje não ficamos muito longe dessa realidade se levarmos em conta que fomos capazes de produzir e fomentar instrumental tecnológico poderoso o bastante para aniquilar o planeta algumas centenas de vezes.

Afinal de contas, por que o "homem" é violento? Logo nos primórdios de nossa infância somos bombardeados com "toneladas" e mais "toneladas" de processos, a nos orientar segundo padrões de comportamento norteados por estímulos, concepções e valores assentados na agressividade. Ouvimos "historinhas de ninar" nas quais o "Lobo Mal", obstinado, tenta, a qualquer custo, devorar menininhas inocentes que perambulam a esmo pelas "florestas encantadas". Nossos corações são acalentados com doces cantigas cujo principal objetivo consiste em nos ensinar que devemos adormecer o mais rápido possível, caso contrário a "Cuca" virá em nosso encalço! Nossos "heróis" usam espadas, armas letais capazes de cuspir raios fulminantes, são mestres em artes marciais, especialistas na "arte" da esperteza e da malandragem.

Ora, entramos na adolescência, passamos à fase adulta e o quadro vai apenas se agravando. "Vença" de qualquer maneira. Seja o número um, tomando a melhor cerveja, fumando o melhor cigarro, acumulando polpudas contas bancárias. O automóvel torna-se uma extensão de nosso próprio corpo; sinônimo de sucesso: um verdadeiro símbolo fálico! "E não se esqueça! Carro velho pra quê?" Então, apenas um "pênis motorizado" não é mais o suficiente - e de preferência importado. "Consolide sua posição de vencedor, seu território. Compre um iate e navegue até sua própria ilha paradisíaca!". O indivíduo passa a ser governado pela necessidade de "ter". Ter cada vez mais. "Ser" torna-se irrelevante e "sentir" absolutamente desnecessário. Não importa a produção do pensamento: idéias são desprezíveis. É preciso produzir bens tangíveis, materiais. O irresistível apelo consumista - atrelado a um sentimento visceral de competição -, traz o isolamento, intensifica o egoísmo, aniquila o apreço à vida, colocando-a em segundo plano.

Em última instância, quem pratica a violência pretende impor a própria imagem. Inconscientemente, ou não, determina uma relação de poder espúria, sórdida. Em termos dialéticos, a relação de poder discricionário entre estado e sociedade, patrões e assalariados, criminosos e vítimas é basicamente a mesma. A diferença ocorre no campo da manipulação dos códigos legais ou em sua operacionalização marginal.

Sendo assim, fica bastante clara a necessidade de reverter as expectativas comportamentais vigentes. É preciso substituir esse modelo sedimentado no individualismo crônico. Os grupos humanos, não obstante as vertentes do pensamento ideológico, devem concentrar esforços efetivos direcionados à necessidade de substituir as estruturas arcaicas da supremacia, do ideal imperialista, das castas de privilegiados, por sistemas cuja orientação lógica leve em conta a cooperação ao invés da competição; a interação em vez do egoísmo.
O mundo não precisa de "reis"; de "rainhas". É tolice produzir campos de miserabilidade absoluta e, logo em seguida, invocar "heróis", salvadores da pátria. Então, quem deve ser o "mocinho"; quem deve ser o "bandido" da história?!

 

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