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Escrito por JRMarques às 10:16:31 PM
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Uma página em branco é assustadora. O nada revolucionário; a idéia do vazio desafiador: um protesto mudo, contudo absolutamente lúcido. A lucidez do nada desprovido de vícios e anomalias. Não à mediocridade filosófica e ideológica! Não ao pensamento discricionário, pusilânime!

Utopia desvairada? Devaneio quixotesco? Precisamos, urgentemente, nos desvencilhar da desconfortável tendência do apego aos rótulos. A idéia de repensar as ações humanas fascina, mas, ao mesmo tempo, produz um temor brutal. Vivemos às voltas com sociedades em crise; com modelos econômicos burocráticos, ineficazes, anacrônicos. As relações humanas estão deterioradas, contaminadas pela intolerância étnica. A opulência, quando existe, é absoluta; a miséria, que sempre existe, também é absoluta: alimentamos, de maneira contumaz, modelos de interação falidos. Fracassou a retroação. Caminhamos, inexoravelmente, numa rota de colisão frontal com a entropia melancólica de nossos parcos valores existenciais.

Onde identificar a realidade? Nas suntuosas edificações arquitetônicas de grandes centros urbanos como Nova Iorque, ou no exíguo e minguado contexto material dos povos etíopes (Afares, Bodis, Konsos...); lugares ermos, distantes milhões de anos-luz de nossa egocêntrica percepção? Afinal de contas, o que é a realidade? Partindo do pressuposto de que o conceito de "realidade" pode ser definido como um conjunto de valores e eventos relacionados a preceitos socialmente aceitáveis; idealizados a partir da ótica ocidental dinheiro, automóveis, apartamentos, ilhas particulares, aviões particulares, vitórias, derrotas, etc. qual a participação, a importância do "lado obscuro do mundo" em toda essa história? Ou não existe realidade? Ou, quem sabe, a "realidade" está no "lado humílimo do mundo"?! A propósito, a quem pertence o planeta Terra? Quem o dividiu em territórios? Qual o lado certo; o lado errado do mundo? Quantos lados tem o mundo? Homo sapiens (mas, nem tanto), somos ávidos especialistas na exótica arte de fragmentar, de cultivar o sectarismo, de erguer fronteiras, de criar e defender símbolos, escudos e bandeiras. "O meu lado é o que deu certo, o que venceu, o politicamente correto. O seu lado é a escória; lixo, escroto". Decadência: conceito vigente. A palavra-chave. Talvez, ainda estejamos em plena idade da pedra; apenas escamoteados por uma tênue indumentária de pseudocivilidade.

Planejamos a revolução francesa; criamos todo o seu ideário com o propósito de substituir o modelo primitivo e subserviente do mundo medieval, outrora orientado basicamente pelas diretrizes do feudalismo. De fato, conseguimos apenas substituir senhores feudais e feudos por elites econômicas abastadas e os antigos vassalos por "escravos assalariados". Delimitamos o planeta em dois setores diametralmente opostos: os desenvolvidos e os subdesenvolvidos. Permitam-me, nesse ponto, um pequeno parêntese. Para distensionar o consequente e acirrado clima de disputas entre as nações, hoje, deparamo-nos com a criação do curioso conceito de países emergentes. O termo contraria, de maneira frontal, as leis da física. Emergentes? Num mundo em pleno processo de submersão? Pensando bem, assumir status de emergência sob tal contexto não deixa de ser um gesto de suprema rebeldia. Pois bem, as cabeças rolaram em vão. A guilhotina tornou-se um “artefato obsoleto”: peça de museu. Era preciso dar um passo adiante.

Heureca! Engendramos a revolução bolchevique. Portanto, abaixo o egoísmo patológico do mundo capitalista! Vamos dar "um basta" à busca desenfreada do acúmulo de riquezas! Não às injustiças sociais; à opressão do proletariado e do campesinato, impiedosamente, utilizados como massa de manobra! Abaixo a hipocrisia, a falsa moral disseminada pela igreja católica, orientando a sociedade burguesa: vamos nos livrar da "camisa de força" do sentimento de culpa, do remorso auto-indulgente e das mentiras históricas do catolicismo! Criemos uma sociedade mais justa e igual!

Chavões ideológicos à parte, a verdade é que as chamadas massas alienadas tornaram-se reféns de um cruel estado militarista e genocida, organizado e dirigido por uma elite tecnoburocrática totalmente desvinculada dos interesses do proletariado. As "massas" eram cada vez mais massas, cada vez mais alienadas e manobradas, cada vez mais aprisionadas; trancafiadas numa camisa de força ideológica.

Então, agora, abaixo o muro de Berlim! Vamos restituir a autonomia das antigas repúblicas russas! Derrubemos o império chinês, a "ditadura" cubana! Abaixo os regimes estatais burocráticos! Aniquilemos as culturas teocêntricas fundamentalistas! Combatamos feroz e inflexivelmente o terrorismo! Defendamos o direito à individualidade; à liberdade de expressão, o estado de direito, o mercado livre e a propriedade privada! A vitória é do capitalismo! É a nova ordem; a era da globalização econômica.

Absolutas falácias. O mundo tornou-se um grande conglomerado financeiro, industrial e comercial: o império das grandes corporações econômicas internacionais. A absorção do "menor" pelo "maior"; do "mais pobre" pelo "mais rico"; do "subdesenvolvido" pelo "desenvolvido". Uma mistura caótica de miséria absoluta e riqueza absoluta, imposição cultural e falta de identidade cultural. Uma salada indigesta, consolidando uma conjuntura social complexa, problemática, instável e convulsiva. Os nós da "camisa de força" estão mais apertados, e somos "nós" os agentes e receptores do processo deliberado de aprisionamento compulsivo.

Seguramente poderíamos ponderar que, de um lado, a revolução francesa não conseguiu substituir o “velho regime”, implantando o novo sistema sedimentado nos paradigmas do tripé “liberdade, igualdade e fraternidade”; e, de outro, nem tão pouco a revolução bolchevique logrou instaurar um novo modelo de relação entre capital e trabalho orientado pelo princípio de que todos devem “produzir de acordo com suas próprias capacidades e receber segundo suas próprias necessidades”, sistema em que operários e camponeses assumiriam o comando dos meios de produção.

E agora José? E agora Joseph? E agora Yoseph? E agora?! Que rumo devemos tomar? Inventaremos uma nova revolução; algum novo ismo? Ou permaneceremos imóveis e apáticos; apenas assistindo a derrocada final? Aparentemente o caos e a incerteza se implantaram; estão começando a criar sólidas raízes.

Historicamente nos esforçamos no sentido de produzir conhecimento a partir da reflexão e da análise de uma suposta "realidade" que nos cercava. Essa produção de conhecimento normalmente orientou-se pela busca da perfeição, empregando-se, para tanto, métodos racionais e lógicos pelo menos essa era a presunção. Ramos do conhecimento humano adquiriram status de ciência autônoma: sociologia, política, direito, etc. O pensamento positivista embasava; dava sustentação ideológica ao processo. A idéia básica era obter o controle, de tal sorte que as variáveis de um determinado evento pudessem ser razoavelmente administradas: pessoas, organizações, instituições, comunidades, povos, nações, etc. Contudo, tal metodologia tem demonstrado absoluta ineficácia. O caos e a incerteza, então, apresentam-se como elementos produtores de um novo tipo de conhecimento norteado pela rebeldia: nada representa obstáculo para "o nada"; nenhum "ismo" é capaz de controlar, subjugar ou ceifar a necessidade incontrolável de obtenção do conhecimento destituído de vícios idiossincráticos ou anomalias patológicas.

Sempre tivemos a impressão; a nítida sensação do rumo certo. Talvez agora, sob o jugo das incertezas decorrentes da falta de perspectivas, aceitemos o fato de que jamais estivemos, sequer, no início da trilha do tal "rumo certo". No futuro, para o nosso próprio benefício o mais breve possível, quem sabe consigamos desenvolver novos modelos de interação entre os diversos grupos antropológicos que compõem a espécie humana. Modelos que levem em conta indivíduos inseridos em comunidades, não isoladamente; que considerem a interação entre os seres vivos e o meio natural que garante sua sobrevivência; que respeitem as diferenças e busquem a igualdade. Precisamos aprimorar o conceito de desenvolvimento; desatrelá-lo do engessamento pragmático que o reduz à idéia do “bem-estar” material. Desenvolvimento deve ser sinônimo de bem-estar humano; estar inserido no contexto de bem-estar humano não significa tão somente ter um carro, uma casa, um emprego, etc. Sem dúvida pode significar parte disso, mas também, e sobretudo, deve representar acesso aos meios de produção de conhecimento que sejam capazes de transformar indivíduos passivos em seres completos e atuantes. Somente sociedades mantidas e organizadas por seres humanos solidários, completos e atuantes poderão evitar a derrocada final. Muito pior do que a destruição física do planeta será a manutenção da ordem atual: decadência sistêmica, gradativa e irreversível. Quanto a isso não tenho a menor sombra de dúvida.

 

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